“A Ciência do Amor e o Amor na Ciência”.

Padrão

O amor é um fenômeno neurobiológico complexo, baseado em atividade cerebrais de confiança, crença, prazer e recompensa, atividades essas que envolvem um número elevado de mensageiros / autores químicos (T. Esch, G.B. Stephano, The neurobiology of love, Neuroendocrinology Letters No.3 26 (2005); H.E. Fisher, Why We Love: The Nature and Chemistry of Romantic Love, Henry Holt and Company, New York, 2004).

As 3 fases do amor romântico

A primeira fase é chamada ‘fase do desejo’ e é desencadeada pelas nossos hormônios sexuais, a testosterona nos homens e o estrogênio nas mulheres. É a circulação destes hormônios no nosso sangue – que se inicia na fase da adolescência – que torna o nosso cérebro interessado em parceiros sexuais, digamos assim. Ou, nas palavras de Helen Fisher “é o que nos leva a sair à procura de qualquer coisa”.

A segunda fase é a ‘fase da atração’, enamoramento ou paixão: é quando nos apaixonamos, ou seja, é a altura em que perdemos o apetite, não dormimos, não conseguimos concentrar-nos em nada que não seja o objeto da nossa paixão. É uma fase em que podem acontecer coisas surpreendentes, que por vezes dão origem a situações divertidas (para os outros) e embaraçosas (para o próprio): as mãos suam, a respiração falha, é difícil pensar com clareza, há ‘borboletas no estômago’… Enfim… E isto tem a ver com outro conjunto de compostos químicos que afetam o nosso cérebro: a norepinefrina que nos excita (e acelera o bater do coração), a serotonina que nos descontrola, e a dopamina, que nos faz sentir felizes. Curioso é verificar que todos estes compostos químicos – designados neurotransmissores, já que participam nas transmissões do sistema nervoso e no cérebro – são controlados por um outro, chamado feniletilamina que está presente no chocolate. Estará aqui a razão para o chocolate ser uma prenda tão apreciada para os namorados, ou para ser tantas vezes a compensação para um amor não correspondido? Aparentemente, a feniletilamina é degradada rapidamente no sangue, pelo que não haverá possibilidade de atingir uma concentração elevada no cérebro por ingestão… A feniletilamina controla a passagem da fase do desejo para a fase do amor e é um composto químico com um efeito poderoso sobre nós… Tão poderoso, que pode tornar-se viciante. Os dependentes da feniletilamina – e dos seus auxiliares – tendem a saltar de romance em romance, abandonando cada parceiro logo que o cocktail químico inicial se desvanece. Quando permanecem casados, os viciados do amor são frequentemente infiéis, na busca de mais uma dose de excitação extra. Mas este tipo de viciados tem um problema: o nosso corpo desenvolve naturalmente a tolerância aos efeitos da feniletilamina e cada vez é necessário maior quantidade para provocar o mesmo efeito.

A terceira fase é a ‘fase de ligação’ – passamos à fase do amor sóbrio, que ultrapassa a fase da atração / paixão e fornece os laços para que os parceiros permaneçam juntos. Há dois hormônios importantes nesta fase: a oxitocina e a vasopressina. A oxitocina é também chamada a hormônio do “carinho” ou do “abraço”. A oxitocina é uma pequena proteína, com apenas nove aminoácidos, produzida numa zona cerebral que se chama hipotálamo. Esta proteína atua tanto em certas partes do corpo (como por exemplo na indução do trabalho de parto) quanto em regiões cerebrais cuja função está associada com emoções e comportamentos sociais. Em animais, a oxitocina contribui para as uniões sociais (incluindo uniões macho-fêmea e uniões mãe-filho) e pensa-se que também atua diminuindo as resistências que os animais têm à proximidade de outrem. E tem o mesmo efeito na espécie humana.

Num estudo efetuado em 2003, verificou-se que a inalação de oxitocina provoca um aumento da confiança nos outros (M. Kosfeld, M. Heinrichs, P.J. Zak, et al., Oxytocin increases trust in humans, Nature 435 (2005) 673-676). Este hormônio é libertado por ambos os sexos durante o orgasmo. O que parece indicar que quanto mais sexo um casal praticar, maior é a ligação química entre eles… H. Fisher sugere mesmo que a melhor forma de uma mulher se reapaixonar pelo seu companheiro – na fase em que a relação já esfriou – é ter sexo (e, sobretudo, orgasmos) com ele (H. Fisher (Excerto de entrevista) Love@National Geographic Magazine, Fevereiro 2006; National Geographic Portugal, Fevereiro 2006, pag. 32).

A vasopressina é atualmente conhecida como o hormônio da fidelidade. É também uma pequena proteína de nove aminoácidos (8 dos quais comuns à oxitocina) e o seu papel no corpo humano é vasto – o nome vasopressina, por exemplo, está claramente relacionado com a sua ação sobre a pressão sanguínea – e algumas experiências recentes com um tipo de roedor dos campos revelou a sua relação com o comportamento monogâmico dos machos. Os estudos compararam o comportamento de duas espécies próximas de roedores do gênero microtus: a espécie microtus ochrogaster, de comportamento monogâmico e a espécie microtus montanus, de comportamento poligâmico promíscuo – isto é, sem qualquer fixação de parceiros (M.M. Lim, Z.X. Wang, D.E. Olazabal, X.H. Ren, E.F. Terwilliger, L.J. Young, Enhanced partner preference in a promiscuous species by manipulating the expression of a single gene, Nature 429 (2004) 754-757). Os estudos de comportamento da espécie monogâmica mostraram que antes do acasalamento, a relação dos machos com os outros machos e fêmeas era uniforme. Contudo, em cerca de um dia de acasalamento, o macho fica ‘preso’ à fêmea pelo resto da vida e não se aproxima de outras fêmeas nem admite a aproximação de outros machos. Aparentemente, é a produção de vasopressina após o ato sexual que determina este comportamento amoroso do macho, que apresenta um elevado número de receptores de vasopressina no cérebro. Contrariamente à espécie monogâmica, a espécie promíscua apresenta um número muito reduzido de receptores de vasopressina. Quando o roedor promiscuo é manipulado geneticamente para desenvolver receptores de vasopressina torna-se monogâmico. Por outro lado, quando a espécie monogâmica é injetada com um fármaco que inibe o efeito da vasopressina, os casais perdem a sua devoção mútua e o macho deixa de defender a fêmea da aproximação de outros machos (H. Fisher (Excerto de entrevista) Love@National Geographic Magazine, Fevereiro 2006; National Geographic Portugal, Fevereiro 2006, pag. 32).

A escolha do parceiro

A escolha de um parceiro é um processo que visa garantir a continuidade da espécie. Mesmo que nós não pensemos muito nisso, a verdade é que se as escolhas fossem sempre mal feitas, a espécie não teria sobrevivido. Por exemplo, as fêmeas tendem a procurar um macho que garanta o sustento dos filhos, enquanto os machos devem procurar fêmeas com boa capacidade de reprodução…

Mas há outros fatores envolvidos e um fator relevante parece ser o perfil genético: o parceiro escolhido deve ter os melhores genes possíveis, já que esses genes vão ser passados aos filhos. Nesta matéria assume um papel importante o chamado Complexo de Histocompatibilidade Principal, relacionado com as defesas imunitárias dos indivíduos.

Aparentemente, todos nós procuramos naturalmente alguém com um sistema imunitário diferente do nosso, para conseguir que os filhos tenham o benefício de ambos os sistemas. No fundo, quando nos sentimos atraídos por alguém, pode ser apenas porque gostamos dos genes dessa pessoa. Mas como é que nós avaliamos os genes dos possíveis parceiros?

Este é um assunto ainda em discussão, mas no qual a química volta a assumir o papel principal! É amplamente conhecido que vários animais, desde os insetos a muitos mamíferos, comunicam entre si através de substâncias químicas designadas por feromônios. O nome feromônios deriva do grego fero, transportar e de hormona, associado a excitar. Numa tradução livre, as feromonas são “transportadores de excitação”. A primeira feromona a ser isolada, em 1961, recebeu o nome de bombicol, por ser a substância usada pelas fêmeas do bicho da seda – cujo nome científico é bombix mori – para atrair os machos. Até recentemente assumia-se que na espécie humana o processo de seleção de parceiros era baseado essencialmente em estímulos visuais. No entanto, hoje já é mais ou menos consensual na comunidade científica que a espécie humana também tem a capacidade de distinguir os genes do parceiro através do cheiro e que a visão pode ter um papel mais secundário (A. Comfort, Likelihood of human pheromones, Nature 230 (1971) 432; A. Weller, Human pheromones – Communication through body odour, Nature 392 (1998) 126- -127; K. Stern, M.K. McClintock, Regulation of ovulation by human pheromones, Nature 392 (1998) 177-179 ; A. Motluk, New Scientist, 7 (2000).

Embora a investigação em feromônios possa vir a definir o futuro do acasalamento humano, a verdade é que a espécie tem sobrevivido bem sem saber nada da química de feromônios. Os nossos processos de escolha de parceiros, de namoro e de acasalamento, sejam eles quais forem, são inegavelmente eficazes – como comprova uma população de mais de 100 milhões de pessoas…

Claro, Paulo Ribeiro. A Química do amor. Divisão Ensino e Divulgação da Química. Jan/Mar 06. pág. 47-50.

About mundoparticularlay

Sou um ser humano. Pelo menos, suponho ser. Talvez mais que uma máquina ridícula de idéias antiquadas e sonhos impossíveis, porém honestamente, é isso que sou, mas me contento em olhar pro futuro e pensar que minhas idéias não são tão estúpidas e que, com grande esforço meus sonhos poderão virar realidade. Posso ser de um tudo (indiferente, excêntrica, implícita, exagerada, intensa, instigante, irônica, sarcástica, anti-social, incoerente, chata, cínica, entediada e por vezes entediante). A dona do ócio improdutivo, praticante do sedentarismo, inoperante, procrastinadora ostensiva. Sou perfeccionista, desastrada, arrependida e azarada, desmemoriada e ciumenta embora, tranqüila, sincera, tímida, tola, ingênua, compassiva e entregue. Não sou perfeita e tenho sérios problemas com a perfeição posso ser várias e mesmo assim, continuar sendo uma só. Então é isso, posso ser incomum, mas convivo bem com as diferenças, só não espere que eu incorpore as “normalidades”...

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